- Quando passei a morar com o Alessandro (seu marido), me interessei pela atividade dele, que é vigilante há anos - conta ela, que se formou no curso em maio e, desde então, tenta sem sucesso entrar no mercado de trabalho.
No curso de vigilante, Milena recebeu menção honrosa. Foi nota 10 em prevenção e combate a incêndio e conquistou média 8,51, com aprovação sem ressalvas em armamento em tiro e primeiros socorros. Quando se candidata a uma vaga de trabalho, Milena precisa se identificar como André, com a observação de que é travesti. Nunca foi chamada para uma entrevista sequer.
- E eu não consigo - lamenta Milena.
Em Volta Redonda, segundo ela, um travesti consegue R$ 4 mil por mês prostituindo-se. Já o salário base mais benefícios do vigilante, diz Alessandro, chega a R$ 1,4 mil. Mas, enquanto a oportunidade não chega, Milena treina para se manter em forma e longe da depressão.
- Caminho para manter meus 74 quilos. Levantar peso, não é sempre, para não ficar musculosa - conta ela, do alto de seu 1,76m, na academia improvisada pelo marido.
Alessandro herdou o gosto pelo trabalho como segurança do pai adotivo, um oficial do Exército que reprova o casamento do filho. A família de Milena apoia o casal e mora na casa ao lado.
Segundo a diretora do Sindicato dos Vigilantes de Volta Redonda e Sul Fluminense, Valéria Martins, o mercado de trabalho para mulheres já enfrenta preconceitos na profissão.
- As empresas só selecionam homens. Para cada 100 contratados, menos de dez mulheres conquistam uma vaga. Acredito que exista um preconceito ainda maior no caso de uma travesti.
Coordenador do projeto Damas, da Prefeitura do Rio, que busca a capacitação e a inserção de travestis no mercado de trabalho, Carlos Alexandre Lima diz que até mesmo empresas de recurso humanos criam obstáculos para fazer encaminhamento de travestis para vagas de emprego.
- A resistência das empresas é imensa. Nunca deixou de existir. A inexistência de tal dificuldade é exceção.
Cláudio Nascimento, coordenador do programa estadual Rio Sem Homofobia, diz que travestis e transexuais são o segmento mais perseguido na comunidade LGBT.
- Existe um estigma muito grande sobre elas. A maioria não consegue terminar o ensino fundamental. As que conseguem, encontram extremas dificuldades para inserção profissional - afirma Nascimento.
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