Em 31 de maio celebra-se o “Dia Mundial Sem Tabaco”, data criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1987 para refletirmos sobre os malefícios de fumar, ato que mata quase 6 milhões de pessoas todo ano, destes 600 mil são fumantes passivos. E o pior: crianças estão entre essas vítimas. Sofrem com pneumonia, asma, inflamações nos ouvidos e na garganta e ainda têm maior predisposição a se tornarem adolescentes e adultos fumantes. Morro de medo desse futuro para a minha filha.
Meu pai fumou muitos anos, começou aos 13, foi até os 17, parou, voltou aos 21, parou, voltou novamente. E então foi parado: sofreu um pneumotórax, espécie de derrame gasoso, uma bolha de ar que, quando estoura, leva o pulmão ao colapso. É uma ocorrência gravíssima com risco de morte, a pessoa precisa voar para a emergência. E o tratamento, no caso do dele, foi medieval: abriram um buraco em seu peito e enfiaram um cano para aspirar o gás acumulado entre as pleuras. Sem anestesia, porque não deu tempo. Já pensou?
Não tenho na memória a imagem do meu pai com um cigarro na boca, sequer me lembro desse episódio que aconteceu quando eu era muito pequena. Mas recordo da cicatriz que ele tinha no peito, um enorme quadrado em alto relevo que reluzia ao sol nos dias de praia. E me fascinava. O que era aquilo, uma portinhola para o coração? Seja o que fosse, trancou para sempre seu amor pelo vício, nunca mais fumou. Fui uma criança sem contato com essa droga lícita. O que não me impediu de experimentá-la aos 24 anos.
Comecei com os mentolados, de brincadeira. Aos 30, quando conheci o pai da Bia, eu fumava esporadicamente. Minha tática (que falhou) para não viciar era jamais fumar de dia, só um ou dois cigarros quando saía pra balada o que, naquela época, era bem frequente. Até que numa bela manhã acordei com vontade de um cigarrinho. Como assim? Fiquei com raiva de mim mesma e imediatamente me impus dois meses de privação. Nossa, foi difícil de cumprir, morri de enxaqueca, me sentia azeda, cinza. Nicotina é uma desgraça. Já estava viciada e não sabia.
Uns três meses depois recoloquei um cigarro na boca e o efeito foi o contrário, deu dor de cabeça ao tragar. A fumaça desceu arranhando a minha garganta, queimou por dentro. Pensei cá com os meus botões: por que estou fazendo isso comigo? A gravidez foi a desculpa que eu precisava, nunca mais toquei nessa porcaria.
Tornei-me uma voz contra esse veneno, especialmente em casa, orientando a Bia. Minha campanha antifumo deu tão certo que tive que apaziguá-la, pois a pequena começou a abordar fumantes na rua para dizer que era errado fumar, fazia mal, coisa e tal. Mesmo sendo simpática recebeu muitos olhares tortos, o que me leva a crer que quem fuma sabe o mal que faz e não gosta de ser lembrado.
Infelizmente, a doutrinação ainda não funcionou com o pai dela. Fumante desde a adolescência, para ele é mais difícil de largar, um problema compartilhado por muitos. A OMS estima que 700 milhões de crianças no mundo estejam expostas à fumaça do cigarro dentro de seus lares. Confesso alimentar temores de que, inconscientemente, nossa filha associe o cheiro do cigarro a coisas boas como estar no colo do papi, acalentada por ele. E que isso a leve a fumar. Será?
Esportes, aula de música, alimentação saudável e muita conversa é o que uso como prevenção. Por já ter estado do lado de lá, sei que é muito fácil cruzar a linha. Basta uma pitada de curiosidade, uma turma de amigos fumantes, um empurrãozinho de um paquera, uma propaganda com apelo certeiro e pronto, eis o primeiro passo. Se depender de mim, esse passo nunca será dado. Cigarro, nem de chocolate.
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