"Tem coisa melhor do que comer? Eu sempre gostei, desde pequeno. Era um
menino gordinho, mas nada fora do normal. Comia bem e parte das
guloseimas extras era compensada pelo esporte praticado na escola. No
começo da adolescência, a coisa desandou assustadoramente. Com o fim das
aulas de Educação Física, parei com o pouco exercício que fazia. Só
estudava, dormia e, claro, comia. E muito. Em um único almoço, por
exemplo, comia grandes porções de macarrão, arroz, feijão, macaxeira
frita, purê e três tipos de carne. De sobremesa, sorvete, bolo ou os
dois. À tarde, lanchava biscoitos recheados com refrigerante e
milk-shake. Isso não era só aos finais de semana ou em uma data
especial. Enfiava o pé na jaca todos os dias.
Passei de gordinho a obeso mórbido. Quando ia à casa de amigos, atacava
a geladeira e a despensa deles. Como me conheceram gordo, estavam
acostumados com o meu peso. E me agradavam com comidas gostosas. Nos
passeios de carro não podia sentar na janelinha, só no meio – para não
desequilibrar o veículo. Se a viagem era de avião, os passageiros faziam
cara feia quando percebiam que eu sentaria ao lado. Meus amigos me
chamavam de Nhônho (em alusão ao amigo gordo do Chaves, personagem da série homônima da televisão mexicana)
e faziam piadinhas. Eu levava na esportiva. Apesar do excesso de
gordura, não deixava de ir à praia, a festas e baladas – lembro que,
numa delas, quebrei a catraca da entrada. Aos 22 anos, havia passado da
casa dos 160 quilos. Dizia que não queria emagrecer, que estava bem
daquele jeito.
Parei para pensar quando minhas calças número 62 não entravam mais. Os
modelos tinham que ser feitos sob medida ou comprados no exterior. Eram
feios e sem corte. Vaidoso, decidi que não queria mais engordar.
Comecei a reduzir as porções do que estava acostumado a comer. Só com a
diminuição, perdi 20 quilos em oito meses. Percebi que poderia existir
uma versão magra do Mauro. Foi aí que tracei a meta de emagrecer pra
valer. Cortei sal, doces, frituras e farinha branca. Como havia
frequentado dezenas de nutricionistas e endocrinologistas ao longo da
vida, já sabia o que fazer. Só faltava força de vontade. E agora eu
tinha.
Não voltei a médicos, não tomei remédio e não fiz cirurgia. Meu
emagrecimento foi natural. Perdia quatro quilos em uma semana, dois na
outra ou até nenhum. Não pirava nem passava fome. Com a ajuda do meu
irmão, que é educador físico, passei a caminhar pelas ruas de Teresina,
cidade onde moro. Confesso que, por vergonha, enrolei para me matricular
na academia. Hoje, não saio mais dela. Malho uma hora e meia todos os
dias. É sagrado. Se estou viajando, levo corda, faço flexões no quarto
do hotel ou saio para bater perna pela cidade. Se passo mais de dez dias
fora, procuro uma academia nos arredores. Em dias atarefados, acordo
mais cedo ou durmo mais tarde para malhar. Levo sempre uma mochila com
roupa de ginástica dentro do carro. Não tem desculpa. Se vou a uma
festa, levo minha marmita light ou, dependendo da intimidade com o
anfitrião, peço para fazer uma saladinha. Em casa, gosto de ir para a
cozinha e preparar meus pratos. Não como os salgadinhos fritos de que
tanto gostava, como coxinha, nem sob tortura. Encaro como se fossem uma
droga. Já bolo caseiro não abro mão. De vez em quando, não resisto a uma
fatia do de laranja ou de nata com um cafezinho.
Minha alimentação saudável mudou a de todo mundo lá de casa. Meu pai
perdeu dez quilos e minha mãe, sete. Eles sentem muito orgulho da minha
conquista. Lutaram a vida toda para que eu emagrecesse. Em um ano e oito
meses perdi 75 quilos. Tenho 1,84 metros e cheguei a pesar 85. Aí já
estava magro demais. Queria ficar forte. Intensifiquei a malhação e
ganhei 10 quilos de massa magra. Meu percentual de gordura é 13%.
Se eu disser que foi difícil, estaria mentindo. Ver no espelho o
reflexo do meu esforço era minha motivação. Hoje, não sou mais o gordo
da balada. Visto roupas descoladas, estou bonitão. No sexo, estou mais
disposto e meu condicionamento físico melhorou 100%. Posso sentar em
qualquer lugar, inclusive na janelinha. Não tenho ‘projeto verão’,
‘carnaval’ ou do tipo ‘tanquinho definido’. Meu projeto é ser saudável
para o resto da vida. Brinco que é o ‘projeto caixão fit’."
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