Por WALLACE CARVALHO
O vídeo de lançamento de “Salve Jorge” apontava que a
produção seria um novelão eletrizante. A trama tinha tudo para repetir o
sucesso de “Avenida Brasil” e marcar época por conta de seu pano de
fundo: o tráfico de pessoas. Não deu. A baixa audiência devido ao ritmo
bastante diferente da antecessora obrigou a autora a alterar a sinopse
original transformando a produção em um samba do crioulo doido.
Nanda Costa já entrou no projeto em clima de tensão. Primeiro porque nunca foi segredo que parte da direção não era a favor de sua escalação. Afinal, Glória decidiu buscar um rosto desconhecido do grande público após terem lhe tirado Juliana Paes para estrelar o remake de “Gabriela”. Depois, porque a “turma do contra” quis jogar nas costas da novata os índices abaixo do esperado.
Quase ofuscada por Carolina Dieckmann devido às mudanças na trama, Nanda batalhou seu espaço e mesmo com uma mocinha bastante diferente do tradicional provou que mereceu o voto de confiança da casa. Termina o folhetim como a mais nova estrela da emissora.
Glória Perez também merece aplausos. Única autora brasileira a ganhar o Emmy de melhor novela, deu um exemplo de humildade ao defender seu projeto com unhas e dentes nas redes sociais. Tentou explicar o que não fazia sentido, desmentiu boatos, rebateu críticas, acusou críticos de perseguirem a trama e até reconheceu erros no roteiro e consertou em seguida. Coisa que nenhum dos medalhões do canal carioca se dá ao luxo de fazer.
No quesito merchandising social, Glória acertou em cheio mais uma vez. Além de apostar em um tema quase inédito na TV brasileira, a escritora jogou luz em cima de um tipo de crime que mais parecia lenda urbana. Fez o Congresso Nacional tomar atitudes para acabar com o tráfico de pessoas e abriu os olhos da sociedade. Todo o mundo que receber um convite tentador vai se lembrar da novela e se precaver antes de cair em um golpe.
Dramaturgicamente falando, o assunto foi mal explorado. Foi difícil “voar” na história da mocinha confusa que prefere se abrir com uma desconhecida a desabafar com a madrinha delegada. Com um protagonista fraco, não teve como entrar de cabeça no romance do manipulável capitão do Exército com uma favelada. E a vilã? Difícil sentir ódio de alguém que anda com seringa na bolsa para eliminar inimigos e perde a cabeça pelo primeiro cara que lhe bate a porta na cara.
Com isso, brilharam os coadjuvantes. A começar por Helô (Giovanna Antonelli) e Stênio (Alexandre Nero). A “delegata” foi a verdadeira protagonista. Talvez, por ter sido a única personagem que não conseguia acreditar em tudo que se passava debaixo de seu nariz. O público se identificou com a incredulidade da personagem diante dos fatos.
Foi por conta de Giovanna que a novela se livrou da pecha de pior audiência do horário nobre. A autora percebeu a tempo a força do tipo construído pela atriz e investiu pesado na beldade.
Apenas nas duas últimas semanas, a novela engrenou e o público pode perceber a gama de personagens e história interessantes que poderiam ter sido explorados ao longo dos últimos setes meses enquanto a autora tentava se encontrar no meio de seus roteiros furados.
Na reta final, Maria Vanúbia (Roberta Rodrigues) monopolizou as redes sociais e mostrou a força do apelo popular da favelada. Delzuite (Solange Badin) e Aisha (Dani Moreno) cativaram o público com o drama da menina que se decepciona com a realidade da mãe que idealizou a vida inteira.
Podemos incluir ainda nessa lista, Lurdinha (Bruna Marquezine), Pescoço (Nando Cunha), Wanda (Totia Meirelles), Russo (Adriano Garib), Jô (Thammy Miranda). Todos personagens com pouca expressão que acabaram se transformando nas estrelas principais do projeto.
Considerar “Salve Jorge” um desastre por seus deslizes seria injusto. No entanto, a produção não termina sua caminhada apenas como mais uma novela das 21h. A trama será lembrada como o folhetim que muita gente assistia somente para poder criticar.
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