Quando choravam, choravam os dois. Quando riam, riam na mesma hora. Não divergiam, não discutiam, não discordavam. A harmonia era soberana, na bonança e na tristeza, no tufão e na calmaria, no vigor e na doença. Quando sentiam dor de cabeça dividiam as aspirinas. Xingavam pela topada do outro, espirravam em dueto, tossiam em raro sincronismo. Até TPM repartiam, com humores alterados, dores somatizadas, fantasmas compartilhados. Não tinham filhos por opção. Egoístas, não se enxergavam amando mais do que a si próprios.
Até que chegou Violeta, filha da prima distante, para uns tempos de estudo na cidade. Foi morar com eles. Menina já mulher, iluminada e especial, cativante e esplendorosa, meio tímida, meio atirada, meio anjo, meio diabo. Certa noite, partilhando da mesma insônia de Maria, Mario puxou o assunto.
- Amor, tenho que te contar uma coisa. É papo brabo. - Desembucha, homem. - Essa menina Violeta, sei não, Maria, essa convivência inusitada está mexendo comigo. Nunca imaginei que isso fosse acontecer com a gente. Ela me tira do sério, me cutuca as vontades. - Não me diga que está se apaixonando por ela, Mario? - Como você percebeu? - Porque também estou, querido. Completamente. É coisa forte e perturbadora.
Antes que o sol nascesse, Mario e Maria foram ao quarto ao lado. E fitaram Violeta nua, semi embrulhada nos lençóis, cabelos castanhos emaranhados sobre o rosto, pernas abertas fazendo um quatro, mão sobre a relva do sexo exposto, provocando um ligeiro movimento pélvico ritmado por delicados suspiros. Sinal de que boa coisa ali se sonhava. Mario e Maria assistiram ao ressonar de Violeta, abraçados, pulsantes e desejosos de que aquilo não acabasse nunca. Mas eis que Violeta acorda de supetão. Senta-se na cama, tira os cabelos do rosto, tenta cobrir com travesseiro os seios em riste. A menina ronrona com sua pureza maldosa. - Mario, Maria... fiquem aqui comigo. Estou tendo sonhos estranhos...
E assim inauguraram os três uma vida a dois. Passaram a dividir cama, mesa, banho e óbvias gostosuras. Riam, se divertiam, faziam-se de gato e sapato, dormiam abraçadinhos, preparavam comidinhas, assistiam DVD, saiam para dançar, passear, tomar chope no botequim. Tinham planos para o futuro, casa de campo, viagem a Europa, um filho, talvez, por que não? Um homem e duas barrigas, era só escolher.
Mas um dia Violeta não chegou. Mesa posta para três, um silêncio foi servido na hora do jantar. Meia noite, noite e meia, madrugada, sol nascendo. Da janela, quatro olhos desassossegados entre persianas trêmulas e respirações suspensas, avistam um carro na entrada do edifício. Violeta exuberante, vestido esvoaçante, cabelos desajeitados, sandálias de salto na mão, sorriso de quero mais, se despede de um vulto alto e forte, supostamente bonitão. Um beijo eterno e contundente, facada em dois corações.
Naquele instante flagrante, Mario e Maria experimentaram, mais do que nunca, a perfeição suprema da sintonia. Quatro orelhas arderam, quatro pernas bambearam no mesmo chão que se abria. Duas gargantas, um nó. Um soco num peito só. Pela primeira vez na vida, conheceram o ciúme. De corroer os estômagos siameses, suar as mãos entrelaçadas. Nos corações gêmeos e nas testas parelhas, a mesma dor da traição.
* José Guilherme Vereza é publicitário e escritor. Dizem que tem alma feminina, mas seu próprio lado mulher duvida de sua feminilidade.
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